As urnas desafiaram as pesquisas. O segundo turno desafiará a história?

Sóstenes dos Anjos · 10 min

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, o PL ampliou sua presença no Congresso e Lula tentará realizar uma virada inédita nas eleições presidenciais brasileiras desde 1989.

O primeiro turno das eleições de 2026 deixou dois recados importantes.

O primeiro veio da disputa pela Presidência. As pesquisas divulgadas nos últimos dias de campanha apontavam Lula na frente, mas as urnas colocaram Flávio Bolsonaro em primeiro lugar.

Com praticamente todos os votos apurados, Flávio obteve cerca de 47,05% dos votos válidos, contra 45,14% de Lula. A diferença foi estreita, mas suficiente para inverter a ordem indicada por levantamentos de grande repercussão na reta final.

O Datafolha, por exemplo, apontava Lula com 45% dos votos válidos e Flávio com 40% No 1º turno, Lula (PT) lidera com 45% dos válidos, e Flavio Bolsonaro (PL) tem 40% . No resultado oficial, porém, o candidato do PL terminou à frente Flávio Bolsonaro e Lula disputam o segundo turno das eleições para presidente .

Isso não significa, necessariamente, que as pesquisas sejam inúteis ou fraudulentas. Elas são retratos de um determinado momento, produzidos a partir de amostras, metodologias e margens de erro. Não são previsões infalíveis do futuro.

Ainda assim, quando os principais levantamentos não conseguem identificar corretamente a ordem dos candidatos, o episódio merece ser analisado. Pode ter havido uma movimentação tardia do eleitorado, dificuldade para representar determinados grupos, diferenças no comparecimento às urnas ou uma combinação desses fatores.

Mais importante do que buscar uma explicação única é reconhecer que o eleitor real voltou a impor limites às interpretações feitas antes da abertura das urnas.

O segundo recado veio do Congresso O resultado presidencial não pode ser analisado isoladamente. A eleição parlamentar também revelou o crescimento expressivo do PL e de setores identificados com a direita e o conservadorismo.

O partido elegeu 121 deputados federais e conquistou a maior bancada da Câmara — 24 cadeiras a mais do que na eleição anterior. A federação formada por PT, PCdoB e PV ficou em segundo lugar, com 88 deputados PL sai na frente na eleição da Câmara dos Deputados, com 121 eleitos .

No Senado, o PL elegeu 19 parlamentares e poderá iniciar a próxima legislatura com uma bancada de 28 senadores. Se a projeção se confirmar, será a maior bancada de um partido no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988 PL terá maior bancada em início de legislatura no Senado desde 1988 .

Os números indicam uma mudança relevante na distribuição do poder político. Mas não significam que o PL governará sozinho. O sistema brasileiro continua exigindo negociação, formação de maiorias e diálogo com diferentes bancadas e forças regionais.

A eleição presidencial define quem comandará o Executivo. A composição do Congresso, por sua vez, terá influência direta sobre as propostas que poderão avançar — e sobre a capacidade de o próximo governo aprovar sua agenda.

Lula tenta romper um padrão histórico Desde a retomada das eleições presidenciais diretas, nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu vencer a disputa no segundo.

Em 1989, Fernando Collor liderou a primeira etapa e derrotou Lula na votação seguinte. Em 2002 e 2006, Lula terminou na frente e confirmou a vitória. Dilma Rousseff repetiu o caminho em 2010 e 2014. Jair Bolsonaro liderou e venceu em 2018. Em 2022, Lula chegou ao segundo turno na liderança e manteve a posição na etapa decisiva.

Nas eleições de 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso foi eleito já no primeiro turno.

Assim, em todos os segundos turnos presidenciais realizados desde 1989, o candidato que começou na liderança terminou eleito. Esse histórico pode ser consultado nos resultados de eleições anteriores do TSE .

Em 2026, no entanto, a diferença entre os dois finalistas é pequena demais para permitir conclusões antecipadas. A história mostra um padrão, mas não determina o resultado.

O segundo turno é, na prática, uma nova eleição. Os votos recebidos no primeiro turno não são transferidos automaticamente. Eleitores dos candidatos eliminados podem escolher um dos finalistas, votar em branco, anular o voto ou simplesmente não comparecer. O próprio TSE explica essa dinâmica .

O que pode decidir o segundo turno? A disputa não será definida apenas pela capacidade de cada candidato manter os votos que já recebeu. Os dois precisarão ampliar seu apoio para além da própria base.

Entre os fatores que merecem atenção estão:

a transferência dos votos dos candidatos eliminados; o nível de rejeição de cada finalista; o comportamento dos eleitores que decidiram o voto nos últimos dias; as alianças políticas e os apoios regionais; o desempenho nos debates; a comunicação de campanha; a abstenção e o comparecimento em regiões estratégicas; a avaliação do governo, da economia e das perspectivas para os próximos anos. Também será importante observar se o fortalecimento do PL no Congresso se transformará em impulso direto para Flávio Bolsonaro ou se parte do eleitorado fará escolhas diferentes para o Executivo e o Legislativo.

O voto brasileiro nem sempre segue uma lógica partidária uniforme. Um eleitor pode escolher um deputado de determinada corrente política e, ao mesmo tempo, votar em um candidato presidencial de outro campo.

Por isso, o resultado do Congresso é um sinal político importante, mas não uma garantia sobre o segundo turno.

O que está em jogo para a economia? Para famílias, empresas e investidores, o resultado eleitoral importa principalmente pelos efeitos que poderá produzir sobre a condução da economia e a capacidade de governar.

Independentemente de quem vencer, o próximo presidente precisará lidar com um Congresso fortalecido, plural e marcado por interesses regionais diversos. Nesse cenário, será necessário acompanhar temas como:

a política fiscal e a trajetória da dívida pública; a escolha da equipe econômica; a relação entre Executivo e Congresso; a segurança jurídica e o ambiente de negócios; reformas e regulamentações; a política tributária; a credibilidade das instituições. Os mercados podem reagir rapidamente a pesquisas, discursos e resultados eleitorais. Essa volatilidade, porém, não deve ser confundida com uma mudança permanente de tendência.

Decisões patrimoniais de longo prazo não deveriam ser tomadas apenas com base na preferência política ou na reação do mercado em um único dia. Diversificação, liquidez, horizonte de investimento e adequação ao perfil de cada pessoa continuam sendo mais importantes do que tentar antecipar todos os movimentos provocados pela eleição.

A história está em disputa O primeiro turno de 2026 mostrou que pesquisas devem ser lidas como estimativas, não como sentenças. Também revelou um Congresso mais favorável ao PL e colocou Lula diante de uma tentativa de reversão que ainda não ocorreu na história recente das eleições presidenciais brasileiras.

Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno com a vantagem numérica e com o peso do histórico a seu favor. Lula, por sua vez, precisa superar uma diferença pequena e construir uma maioria que não apareceu na primeira votação.

A história garante algum resultado? Não.

Ela apenas mostra que, até agora, todos os candidatos que terminaram o primeiro turno na liderança também venceram o segundo.

A verdadeira questão é saber quais condições políticas, econômicas e eleitorais seriam necessárias para romper esse padrão mantido por mais de três décadas.

No dia 25 de outubro, saberemos se o primeiro turno apenas contrariou as pesquisas — ou se o segundo também reescreverá a história das eleições presidenciais brasileiras.

Conteúdo produzido em 5 de outubro de 2026, com base nos resultados disponíveis até esta data. O texto tem caráter exclusivamente informativo e não representa recomendação política, eleitoral ou de investimento.

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